[ UMA LENDA IMORTAL: O FANTASMA ]

* Originalmente publicado em 17 de Fevereiro de 2005 - Republicado com atualizações
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Hoje, 17 de fevereiro de 2010, são completados exatos 74 anos de publicação da 1º tira do mais antigo aventureiro mascarado e uniformizado da história dos quadrinhos, o grande precursor dos super-herois: o Fantasma. Nascido da mente fértil do então jovem roteirista Lee Falk (um autor já consagrado pelo seu sucesso anterior - Mandrake, O Mágico), ganhou formas definitivas pelo elegante traço de seu primeiro desenhista oficial, Ray Moore. O "Espírito-Que-Anda" rapidamente conquistou o gosto popular não somente dos norte-americanos, mas, em uma velocidade espantosa para uma época que não contava com os recursos de mídia de hoje em dia, também dos brasileiros, italianos, suecos, australianos... Sua incrível popularidade motivou a criação de algumas das primeiras revistas em quadrinhos do século XX, e popularizou os chamados "comic books" entre as mais diversas faixas etárias - inclusive entre adultos. O mais curioso de seu lançamento em revistas em quadrinhos ao redor do mundo, antes que os norte-americanos sequer sonhassem com essa possibilidade editorial, é que os editores estrangeiros, sem referência das cores de seu uniforme (que só ganhou a cor roxa a partir da publicação das pranchas dominicais coloridas, em maio de 1939) usaram de criatividade, e no Brasil, Itália e França, coloriram o traje do heroi de vermelho. Fazendo uma pesquisa mais minuciosa na Internet, descobrimos que o Espírito-Que-Anda foi publicado com o uniforme escarlate (embora não tão sistematicamente como no Brasil) também na Alemanha, Espanha, Portugal, Turquia e até em seu país de origem, os Estados Unidos; ou seja, a velha lenda de que o Fantasma teve o seu uniforme colorido de vermelho só no Brasil e devido a um "erro de impressão" é um grande equívoco, repetido através das décadas.
Vamos agora a uma análise dos fatos mais marcantes ocorridos na longa carreira deste "Homem Que Não Pode Morrer":
> 1936: A Gênese. O Fantasma estreia em 17 de fevereiro de 1936, em uma tira de três quadros, no periódico norte-americano "New York American Journal". A primeira prancha já dá uma pequena amostra da originalidade de Lee Falk: a mocinha, Diana Palmer, estreia antes do próprio protagonista, praticando boxe com um homem - mais precisamente, lhe acertando um direto no queixo. Vale dizer que Falk, segundo ele próprio, cuidou tanto do roteiro quanto dos desenhos nas duas primeiras semanas da série. Só então Ray Moore assumiu a parte artística.
No mesmo ano, o justiceiro estreia no Brasil, nos suplementos infantis "A Gazetinha" e do "Correio Universal".
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> 1939: No Brasil, o Fantasma passa para as mãos do Grupo Roberto Marinho, juntamente com todos os personagens da King Features Syndicate, em uma manobra empresarial que por pouco não arruinou Adolfo Aizen, criador do histórico "Suplemento Juvenil" e futuro fundador da lendária Ebal - Editora Brasil-América Ltda. (para um entendimento maior desse episódio em especial, recomendo a leitura do livro "A Guerra dos Gibis", de Gonçalo Junior). Até 1952, o heroi seria publicado pelo "Gibi" e pelo "Globo Juvenil", sempre com destaque.
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> 1942: Estreia, em 2 de fevereiro, a mais longa aventura do Fantasma criada para os jornais, "The Phantom Goes To War". No Brasil, a última publicação desta sensacional aventura, repleta de reviravoltas, foi em "Fantasma Edição Histórica" #14, 2º série, em julho de 1995, pela editora Saber, sob o título de "Invasão e Vitória em Bangala".
O talentoso desenhista Ray Moore é substituído por seu assistente, Wilson McCoy. Esse afastamento até os dias de hoje é cercado por vários mistérios e controvérsias. A versão mais aceita, porém nunca realmente comprovada, é a de que Moore, após servir na 2º Guerra Mundial, retornou do serviço militar traumatizado, pois um acidente durante combate havia lhe afetado as mãos - portanto, ele já não possuía a firmeza e precisão necessárias para o desenho como antes. Surgiram então insinuações de que o artista teria se tornado depressivo e alcoólatra, e que por isso atrasava constantemente as entregas do material. Tais atrasos seriam intoleráveis para o alto profissionalismo de Falk, que decidiu então substituir o artista. Só para reforçar, tais hipóteses nunca foram realmente comprovadas. Até hoje, a saída de Raymond Moore da arte do Fantasma está envolta em sombras...
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> 1943: O Fantasma estreia nos cinemas em um seriado "cliffhanger" grande sucesso, estrelado por Tom Tyler. Um DVD duplo, com som e imagens remasterizados, foi lançado no Brasil pela "Classic Line", em 2004.
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> 1944: É lançada em pranchas dominicais a aventura "The Childhood Of The Phantom", que conta os primórdios do 21º Espírito-Que-Anda. Essa história serviu de base para a saga "Ano Um", produzida pela editora sueca Egmont exatos 60 anos depois. A saudosa editora Ebal publicou essa história pela última vez no Brasil no ano de 1979, em um belo álbum de luxo, com capa de Monteiro Filho e prefácio de Álvaro de Moya.
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> 1948: É lançado o primeiro número de "The Phantom" na Austrália, pela editora Frew. Até hoje, esse gibi é publicado com enorme sucesso na pátria do "AC/DC", alcançando mais de 1500 edições.
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> 1950: Agora é hora dos suecos terem sua publicação-solo do Espírito-Que-Anda, "Fantomen". Com profissionalismo e talento, os escandinavos não só publicam o heroi até hoje, como são os maiores produtores de histórias do Fantasma no mundo.
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> 1953: Brasil! No histórico mês de março de 1953, a Rio Gráfica e Editora lança a primeira edição de "Fantasma Magazine", originalmente com periodicidade bimestral. Essa publicação seria a mais duradoura e bem sucedida da história da editora carioca, alcançando o número #371 em outubro de 1986. Afora a publicação regular, a RGE também lançou inúmeros almanaques e edições especiais, sempre com enorme êxito.
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> 1961: Falece, por ataque cardíaco, Wilson McCoy, sendo substituído por pouco tempo por Bill Lignante; no entanto, o traço de Lignante não agrada totalmente a Lee Falk. Entra em cena, então, o irmão mais novo de Dan Barry, desenhista de Flash Gordon: Sy Barry. Dono de um traço maravilhosamente limpo e dinâmico (embora acusado de "impessoal", pois contava com o auxílio de vários "artistas fantasmas"), se torna o mais popular desenhista do Espírito-Que-Anda, permanecendo no posto até 1994. Ao longo da década de 60, Lee Falk efetuou mudanças tanto nas aventuras do Fantasma quanto do Mandrake. No caso do Espírito-Que-Anda, as aventuras exigiam um enfoque mais moderno, no sentido pleno da palavra. Quando o heroi foi criado, na década de 30, a África era vista como um continente obscuro e misterioso, sob uma ótica aventuresca. Na década de 60, ele já fervilhava de guerras civis. O regime do "apartheid" vigorava na África do Sul. Nos Estados Unidos, Martin Luther King mobilizava multidões na luta pela igualdade racial. Considerando que os quadrinhos não poderiam ficar isentos dessa realidade, Falk decidiu criar personagens negros que ocupassem postos de liderança e destaque (creio que foi a única vez na história da humanidade em que a aplicação de um "sistema de cotas raciais" deu certo). Assim, aposentou-se o Cel. Weeks, branco, do comando da Patrulha da Selva, e em seu lugar entrou o negro Cel. Worobu, um africano. Até então, Bangala, a nação africana fictícia que o Fantasma protegia, não possuía um líder legítimo. Haviam os chefes das tribos, e os príncipes das montanhas distantes, mas não um dirigente de toda a nação. Surge, então, o Dr. Luaga, renomado médico a serviço das Nações Unidas, que foi guindado ao posto de presidente do país - e re-eleito democraticamente desde então. Outro personagem negro de destaque incluído na mitologia do Fantasma foi o Velho Mozz. Mozz está perfeitamente inserido dentro do contexto africano, pois é fato que o único meio de preservação da história nas pequenas tribos é através dos anciões, que transmitem os fatos de geração para geração não através da escrita, mas de forma oral. Outro ingrediente que Falk adicionou às aventuras do Fantasma foi uma gama de malfeitores mais perigosos e violentos. Traficantes de drogas passaram a ser enfrentados com mais frequência pelo Espírito-Que-Anda.
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> 1962: A editora norte-americana Gold Key lança, em novembro, a primeira revista em quadrinhos do Fantasma com histórias especialmente produzidas para o formato "comic book". Esta série durou exatos 74 números, sendo a última edição publicada em 1977.
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> 1977: Finalmente, após uma corte de 41 anos, o Fantasma se casa com Diana Palmer. Vários fatos curiosos cercaram essa tira histórica. Por exemplo, o lápis dessa aventura ficou a cargo do haitiano naturalizado brasileiro André LeBlanc (colaborador de Will Eisner em "The Spirit", do já citado Dan Barry em "Flash Gordon", ilustrador da coleção "Bíblia Ilustrada", das obras infanto-juvenis de Monteiro Lobato pela Editora Brasiliense, e autor da série brasileira de tiras "Morena Flor", dentre inúmeros outros trabalhos). Também pela primeira vez a mesma aventura foi contada tanto nas tiras de segunda a sábado quanto na prancha dominical - quebrando a regra das tiras diárias e das pranchas contarem paralelamente duas histórias distintas. Outro destaque foi o fato de Mandrake e Lothar terem sido convidados de honra da cerimônia de casamento do Espírito-Que-Anda, e, portanto, feito uma pequena, porém marcante e divertida, participação na história. No Brasil, essa histórica aventura foi publicada, na época, em um almanaque em formatinho (que se esgotou, motivando uma 2º impressão), e em um maravilhoso álbum de luxo em capa dura.
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> 1978: Assegurando a continuação da dinastia dos Fantasmas, nascem os dois herdeiros, gêmeos, um menino e uma menina. Seus nomes: Kit (naturalmente) e Heloise.
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> 1985: É lançado o desenho animado "Os Defensores da Terra", produzido em parceria com a Marvel Comics. A animação, que contava com o super-grupo formado por Fantasma, Mandrake, Lothar e Flash Gordon, além dos filhos destes herois, durou duas temporadas, e gerou vários produtos de "merchandising". Foi transmitido no Brasil, por vários anos, pelo SBT.
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> 1988: A DC Comics lança uma sensacional minissérie em 4 edições, de autoria de Peter David, com desenhos de Joe Orlando. Posteriormente, é publicada uma série mensal, com roteiros de Mark Verheiden e lápis de Luke McDonell, que dura 13 números. Esse material foi publicado na íntegra, de maneira exemplar, pela editora Globo, nos anos de 1989/90.
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> 1989: Início do ocaso do Fantasma no Brasil. A mudança das cores do uniforme - do tradicional vermelho e amarelo para o roxo e azul - confundiu e desagradou vários leitores, que se afastaram do título. Sem contar que a editora Globo (ex-RGE) claramente priorizava os chamados títulos "adultos" em detrimento do tradicional Fantasma. Francamente: "Sandman" pode ser muito badalado, mas é de uma burrice crassa descobrir um santo para cobrir outro.
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> 1992: Deu no que deu: em dezembro deste ano, o título-solo do Fantasma é cancelado, sem maiores explicações, na edição #48 da nova série. Era o início do fim.
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> 1993: Após 10 meses sem o Espírito-Que-Anda nas bancas brasileiras, em outubro, dois novos títulos com o Fantasma chegam às bancas: "Gibi: Fantasma" #1, pela Globo, com uma boa produção gráfica e boa seleção de histórias, padrão esse que não foi mantido nas poucas edições seguintes; e "Fantasma Edição Histórica" #1, pela Saber, com uma qualidade gráfica anacrônica, que com certeza foi mantida nas 43 edições posteriores (o único fator elogiável eram as belas capas do desenhista Edú), afugentando qualquer jovem leitor que pudesse renovar o séquito de fãs do Espírito-Que-Anda no Brasil. Tinha realmente início a "Era das Trevas" do heroi em nosso país.
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> 1994: Após quase 34 anos de serviços prestados ao Espírito-Que-Anda, Sy Barry se aposenta das tiras do Fantasma, sendo substituído por George Olesen (um de seus "desenhistas-fantasmas") no lápis, arte-finalizado por Keith Williams nas tiras diárias, e Fred Fredericks (artista de Mandrake) nas pranchas dominicais. Sua última aventura foi "O Fantasma Cowboy", lançada aqui no Brasil em 2001, no primeiro número de "Crônicas de O Fantasma", pela Opera Graphica Editora.
Após 55 anos de parceria, a editora de Roberto Marinho deixa de editar o Espírito-Que-Anda no Brasil, tornando a Saber a detentora exclusiva dos direitos de publicação do heroi. Ai...
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> 1995: Agora é a vez da Marvel Comics assumir os direitos do heroi nas revistas em quadrinhos: a editora norte-americana lança uma minissérie em 3 edições, "Lee Falk"s The Phantom - The Ghost Who Walks", de autoria de dois australianos: Dave DeVries e Glenn Lumsden, cujo traço detalhado lembra Brian Bolland; e "Phantom 2040", minissérie em 4 edições, com desenhos do criador do Homem-Aranha (ao lado de Stan Lee), Steve Ditko. A primeira minissérie foi lançada no Brasil em 1996 pela editora Saber, e depois relançada em um encadernado em 1998. A segunda, "Fantasma 2040", baseada no desenho animado, foi anunciada pela mesma editora, porém nunca publicada.
É lançado o ótimo desenho animado "Fantasma 2040", produzido por Peter Chung, o mesmo criador de "Aeon Flux", uma animação futurista exibida pela MTV. "Fantasma 2040" foi exibido no Brasil primeiramente pelo canal fechado Multishow, e depois pela Globo.
> 1996: Sexagenário do heroi, motivo de comemorações pelos fãs do Fantasma ao redor do mundo. É lançado o longa-metragem "O Fantasma" estrelado por Billy Zane, Treat Williams e Catherina Zeta-Jones.
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> 1998: Em agosto deste ano, a Saber publica o último número de "Fantasma Edição Histórica", e o heroi inicia, então, um amargo período de longos 2 anos e 10 meses sem editora no Brasil, após quase 5 anos de maus tratos. É de doer...
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> 1999: Uma perda irreparável para os fãs do Espírito-Que-Anda: o mundo dos quadrinhos perde o mestre Lee Falk, aos 88 anos de idade, vítima de ataque cardíaco. Falk, indiscutivelmente, foi o maior roteirista de sua geração, criando textos memoráveis não apenas para os quadrinhos, mas também para o teatro. Porém, suas maiores criações - Mandrake e "você-sabe-quem" - seguem firmes e fortes, encantando e entretendo milhões de admiradores ao redor do planeta. Com sua obra, Lee Falk conseguiu o que todo artista almeja: alcançar a imortalidade.
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> 2000: Graham Nolan, ex-artista de Batman, assume a arte das pranchas dominicais, conferindo mais modernidade e dinamismo ao Espírito-Que-Anda.
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> 2001: Após uma estiagem de 7 anos nas "comic shops" americanas, a editora Moonstone Books lança boas "graphic novels" trimestrais do Fantasma. De cara, o heroi se torna o título mais vendido da editora.
E, após um inédito - e terrível - período de 2 anos e 10 meses sem nenhum título do Fantasma em terras tupiniquins, a Opera Graphica Editora adquire os direitos de publicação do personagem.
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> 2005: George Olesen se aposenta das tiras diárias do Fantasma. Em seu lugar, assume Paul Ryan, ex-desenhista de Superman e Quarteto Fantástico, além de artista do Fantasma na Egmont, para as publicações "Fantomen", "Fantomet" e "Mustanaamio". Sua primeira tira foi publicada no dia 31 de janeiro.
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> 2006: Septuagenário do heroi, motivo de comemorações pelos fãs do Fantasma ao redor do mundo. No Brasil, é lançado o espetacular álbum "Fantasma: Sempre aos Domingos", reunindo todas as pranchas dominicais desenhadas por Ray Moore.
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> 2007: Em 25 de março de 2007, após cerca de 7 anos de bons serviços prestados ao Espírito-Que-Anda, o desenhista Graham Nolan deixa o posto de desenhista das pranchas dominicais do Fantasma. Paul Ryan, já experiente nas tiras diárias, assume integralmente a arte do heroi.
No Brasil, a Mythos Editora lança uma edição especial em formato "magazine" e uma série em "formatinho" do Fantasma com intenção de periodicidade mensal. No entanto, equívocos editoriais fazem com que o projeto dure apenas quatro números.
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Assim, aí está um pequeno resumo da longa trajetória de um dos mais duradouros e queridos mitos da história das histórias em quadrinhos. Mais de 70 anos se passaram, e, com certeza, esse jovem senhor possui fôlego suficiente para nos inspirar e entreter por mais 7 décadas. Esperamos apenas que os editores brasileiros não deixem no limbo por muito mais tempo esse fantástico ícone. Volte logo, Espírito-Que-Anda! E parabéns, Fantasma!
"LONG LIVE TO THE GHOST WHO WALKS!"
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Crédito das Imagens:
Capas de "Edição Especial do Correio Universal: Os Piratas do Céo", "Fantasma Magazine" Nº 1, "Fantasma/DC Comics" (Minissérie e Série Mensal) Nrs. 1, "Lee Falk's Fantasma: Ghost Who Walks/Marvel Comics" Nº 1 (Site "Guia dos Quadrinhos");
Capas de "The Phantom/Frew" Nº 1 e Nº 1500, "Fantomen" Nº 1 e Nº 1000, "Fantasma" Nº 371, "The Phantom/Gold Key" Nº 1, "O Casamento do Fantasma" e "Gibi: Fantasma" Nº 1 (Site "The Deep Woods");
Capas de "Fantasma: Casamento & Lua-De-Mel", "Fantasma/Saber - 2ª Série" Nº 1 (Arquivo Pessoal);
Capa de "The Phantom/Moonstone" Nº 1 (Site Oficial da Editora "Moonstone Books");
Capas de "O Fantasma Coleção" Nº 1 e "Crônicas de O Fantasma" Nº 1 (Site Oficial da Editora "Opera Graphica");
Capas de "O Fantasma Especial" Nº 1 e "O Fantasma" Nº 1 (Site Oficial da Editora "Mythos").
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Por Jean Carlos, Em 17 de Fevereiro de 2010.